A Larissa tem quinze anos e faz meses que não passa da porta da casa da avó, onde a família mora nos fundos.
Ela nasceu com uma má formação, não sente nada da cintura pra baixo, e depende de alguém pra ir a qualquer lugar. Os braços não têm força pra girar as rodas da cadeira, então sair sozinha nunca foi possível.
Mas o mundo dela nem sempre foi tão pequeno. Os pais serviam a igreja num lugar longe, no interior. Quando o trabalho acabou de um dia pro outro, devolveram a casa, o carro, e voltaram sem nada. Depois veio o aluguel atrasado, e o despejo.
Hoje os quatro vivem no quartinho dos fundos. O pai pega diária descarregando caminhão, a mãe fica em função da Larissa. A Sofia, irmã de dezessete, vende na escola as pulseiras de miçanga que a Larissa monta o dia inteiro.
Esse ano a Larissa parou de estudar. Cansou dos apelidos, cansou de ser carregada no colo na frente dos outros.
A cadeira em que ela passa o dia foi doada, é muito pequena para ela, fica torta lá dentro.
O que abre esse mundo de novo é uma cadeira motorizada, guiada com uma alavanca só com a mão. Com ela, a Larissa ia e voltava por conta própria pela primeira vez.
Uma família que já devolveu casa, carro e a vida que tinha não alcança essa cadeira sozinha.
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